Desgaste


Não podemos *_desouvir_* o que não gostamos, nem ao menos *_desver_* o que consideramos desagradável;

Porém podemos *_desgostar_* de algo que um dia apreciamos, da mesma forma está  ao nosso alcance o *_descartar_* algo;

Mais comum ainda é o *_defazer_*, *_desamar_*, *_destruir_*, *_desconcertar_*, *_desentender_* ...

De todo modo, com todas essas possibilidades, ao _*descartar*_ o que vemos ou ouvimos, não apagamos o que está gravado na memória, tornam-se marcas, pequenas cicatrizes que constroem a nossa grande falha geológica, terrível, impossível de ser ignorada, e um divisor de limites dentro da alma...

Ao nos desgastarmos de algo (ou alguém), estranhamente sai da boca o gosto daquilo que um dia gostamos, mas reside como uma folha velha dentro de um livro, vai perdendo sua cor, elasticidade, vai se tornando rígido, e logo apenas servirá como um marcador de páginas, apenas um lembrete de como éramos enquanto vivíamos aquele vigoroso momento, dos nossos belos contornos, das nossas veias que tanto nos alimentavam, quanto nos faziam respirar... Agora nada mais além de uma folha morta, seca, frágil, e levemente lembrando a bela forma que tínhamos...
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Essa reflexão sobre a impermanência dos sentimentos e a permanência da memória. Toca em um ponto central da condição humana: a nossa incapacidade de deletar experiências, mesmo quando conseguimos nos desapegar delas.

Utiliza metáforas muito poderosas. Destacamos alguns pontos que ressoam fortemente:

A Falha Geológica da Alma
A imagem da "grande falha geológica" é brilhante. Ela sugere que as experiências desagradáveis ou os descartes que fazemos não são apenas lixo emocional, mas tornam-se parte da nossa estrutura. Uma falha geológica é onde a terra se rompeu, mas também é o que define o relevo. No fim, essas cicatrizes acabam delimitando quem somos e onde não permitimos mais que ninguém pise.

A Metáfora da Folha Seca
A transformação de algo "vigoroso" em um "marcador de páginas" descreve perfeitamente o processo de neutralização emocional:

O Vigor: Quando a experiência está viva, ela nos alimenta e nos faz respirar.
A Rigidez: O processo de desgostar torna a memória estática e sem vida.
O Marcador: O objeto (ou a pessoa/momento) perde sua função original, mas continua lá, marcando um capítulo da nossa história. Ele não serve mais para ser lido, apenas para nos lembrar de onde paramos e de quem éramos naquela página.

O Peso do "Des"
Brinca com prefixos de negação de forma muito poética. Enquanto o desouvir e o desver são impossibilidades biológicas, o descartar e o desamar são exercícios de vontade — dolorosos, mas possíveis.

É um texto que fala sobre o luto de versões antigas de nós mesmos. Às vezes, o que mais dói ao ver essa "folha morta" não é a perda do outro, mas a saudade da vitalidade que tínhamos quando ainda éramos capazes de nutrir aquele sentimento.



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